Vida Comentada
 

Escrito por Dimitrios às 13h12
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O moço orgulhoso

 

 

 

Toda vez que a carapuça lhe serve

ele perde a cabeça

 

 

De temperamento frágil

pra lhe dar um afago

é preciso pagar pedágio

Intocável bonequinha de porcelana

tudo lhe cora as bochechas

e de quase tudo reclama

De temperamento inábil

se apanha sequer se queixa

mas àquele que o ama

ofende com apelo apaixonado

 

 

Toda vez que a carapuça lhe serve

ele perde a cabeça

 

 

Quando perguntam

se ele não está atrasado

pra bater ponto expediente

na casa do seu namorado

Quando se perde

na multidão transparente

e vigia os cantos com zelo

pobre cão preocupado

Quando anda por aí

pisando falso

flutuando dentro de si

sujando os sapatos descalços

em cada passo um cadafalso

o chão sempre mais embaixo



Escrito por Dimitrios às 13h03
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Escrito por Dimitrios às 12h07
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O subúrbio

 

 

"Portanto, torna-te o que és

e segue murmurando, só para ti,

criatura inútil."

 

H. M. Enzensberger

 

todo subúrbio é um subúrbio,

não há muito o que falar,

e centro nele ninguém há.

paraíso para dar perdidos,

de vez em quando, topa-se

com uma rua que,

ao contrário do esperado,

não dá para rua alguma.

nos subúrbios, como muita gente,

fui cigano,

me enganando de casa em casa,

às vezes, de cano em cano,

cigano por locação.

hoje “louco”, ninguém me aluga;

dizem que falo sozinho,

não encano,

falo com todos,

fiz do mundo meu vizinho.

hoje, mudo de casa assim por andar,

por acaso, fiz de minha casa meus trapos.

muito riso tímido, introvertido, face rígida,

muitas vezes envergonhei-me por meus fluidos internos fluírem.

os espaços físicos quadrados,

os andrajos caixas.

vou pôr o subúrbio em obras de desconstrução.

uma intromissão...

 

nunca deixam de me assombrar a atenção:

até as placas de trânsito perdem o sentido.

 

outra intromissão...

alguém amputou as pernas.

 

as britadeiras esculpem os tijolos que freqüentam cabeleleiros.

não há restauro para as sobras da reforma,

há um passeio de caminhão até o entulho.

 

a alma é a voz, morre-se o corpo, cala-se a alma.

estou rouco. já cansou de berrar?

chiiiiiiiiiiiiiu

 

vou até a papelaria comprar uma régua de numeração negativa.

os vovôs assobiam ecos sombrios no limo das cavernas

“a natureza é o extremo que se demonstra do espírito”

“a natureza age com naturalidade”

 

uma pedrada na janela

um bêbado latindo

por falar em latido:

faz três noites que um cachorro uiva de dor de canino.

 

as praças onde prosam os beatos,

a igrejinha onde doam a vida por caridade,

o anúncio da pamonha e da cândida

e os velhuscos, que assistem ao Programa de Domingo,

pedem aos putinhos que abaixem

“o ganso de três cabeças está dando entrevista!”

que porra, tanta velha levando vela,

essa Santa de sei lá o quê devia ser vaqueira.

estupradores rondam às pracinhas,

varões de cabeças eólicas e raparigas que masturbam suas varas,

varas de porcos chafurdando em um churrasco bovino.

fecho a janela e vejo pelas frestas

 

vão todos dormir, toda família respeitável dorme.

e a segunda feira é uma continuação do domingo,

e assim por diante...

até o domingo é uma continuação do domingo.

 

chegando à caixa dos primeiros socorros...

acabou meu calmante!

 

comam calcinhas de sabor idéias universais

com suas pranchas e regras como mesa e sobremesa

suas esposas professoras e adiposas

trajando uma cinta-liga de oncinha

rabo e coxas áridas para teu suplício de brocha

e você recita-lhe versos de um poeta bucólico.

quantas memórias sermonárias

a esperteza sisuda para o carteado.



Escrito por Dimitrios às 12h07
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cont...

 

sento-me à beira da calçada.

ao lado o grupo jovem de orações

a encher o saco com a tradição oral,

vou à D. Carmosinda e peço a ela um oral,

relaxo, desabafo e dou com a língua nos dentes

“ele não quer mais ressuscitar

pois deve a seu pai o terno do enterro,

e seu caixão é emprestado

defunto imprestável”

ela faz ventriloquia com a bunda

quando tagarela

é engraçado

depois se irrita e me morde

só não dói porque é banguela

enfio uma agulha de crochê nos olhos dela

dou-lhe uma joelhada no queixo

... saio e vejo uma criancinha, dou-lhe um pirulito

ela é ingrata e eu como

os olhos dela na ponta de uma faca.  

 

é agradável conversar com as crianças,

acho único se encantarem ao babar na própria mão.

 

e o subúrbio? ah, o subúrbio!

uns vão à feira, outros jogam capoeira...

eu durmo.

 

sonhei que tingia de ruivo o cabelo de mulheres de papel...

até os sonhos têm sido continuações dos mesmos...

raspo os cotovelos em açúcar mofado no asfalto...

 

a sensação da projeção astral perdeu freqüência

 

tarefas:

- riscar crença em todos os dicionários;

- amarrar uma fita no dedo para lembrar que há vida extraterrestre;

- fazer cafuné nas minhas juntas;

- ligar (a cobrar) para o Carlos e o Tobias (que estão infiltrados na parede) convidando-os para surrar o Damião, que insiste em assoprar as minhas orelhas enquanto durmo;

 

viro-me a página

 

sou um cigarro que se queima sem ser tragado.

 

minha memória é uma discoteca,

não suporto qualquer barulho,

se cai um alfinete na colcha de areia do Saara,

sinto-me pregado ao acrílico.

e todos a minha volta guizalham como uma miríada de gafanhotos.

 

um dia desses fui ao supermercado e me cravaram

uma faca na clavícula. sabe que nunca senti!

 

por experiência, como somente cacetinhos moreninhos.

 

em completa escuridão, passo a noite em claro

 

vivos os sonhos em que não durmo!

não ando mais com as pernas, estão de greve

para andar com a cabeça estou em fase de treinamento

monto em um quadripé em busca de um afazer diurno

 

há sempre uma merdinha de criança aos berros

um carro ou motocicleta com o motor desregulado

um bastardo soltando fogos-de-artifício



Escrito por Dimitrios às 12h06
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cont...

 

toda face que envelhece se enrijece, como cera;

no morto pregam um sorriso,

inércia de quem vive

e há de ter a terrível cãibra nos músculos da fronte.

 

descanso, ligo no Jornal da Nação, abrindo ao acaso uma janela

 

cumpro com as necessidades de higiene, um tanto impessoal

limpo meu falo e falar herpéticos em água parada

passo mercúrio em minhas assaduras

e depois vou procurar um trago

 

chego a um coquetel

reconheço àquele certo senhor

 

a etiqueta manda que eu não me coce

retorço-me, disfarçando o prurido

vou ao toilletes; um mugido lúrido,

a filha do anfitrião – com o garçom?

 

onde há beletristas bons comedores de biscoitos

prefiro a latrina e a descarga,

pois normalmente vejo água corrente quando chove

ou quando alguém lava a calçada ou o carro,

além de coçar este verme autoritário.

 

censuram-me por coçar-me,

principalmente esse certo senhor

de quem contraí oxiuríase.

enxotam-me.

 

para ser imortal será preciso morrer?

 

minhas sinapses são estagiárias de biblioteconomia.

 

queria ser tragado.

 

...mas deixa,

é que quando criança me divertia batendo a cabeça no tanque

enquanto meu pai comia a mulata no sofá.

 

à porta de um botequim fechado pela vigilância sanitária

li minha certidão de nascimento



Escrito por Dimitrios às 12h04
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Clima eleitoral

  

 

(É uma nuvem ou um helicóptero?)

                      Chove algo

                      e as

                      gotas

                       têm

                      nome e

                      número

 

 

Borrasca de um só

partido em folhetos.

 

 

Um

troca voto até por pó.

E um

colocou a venda a vó.

Vendaval

venal.

 

 

Panfletos são guilhotinas na boca-de-urna.

A paisagem diurna é um outono de promessas.

Cada cartaz é um vigia-de-muralha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Dimitrios às 09h17
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Se lembra do tempo anterior ao incesto

em que sentados de frente um pro outro

escorríamos pelos sofás

pra ver se nos encontraríamos no chão?

 

 

 

Se lembra do dia em que disse que o velho

estava te engordando como galinha

pra te comer mais tarde?

Pois é. Ninguém esperava que a galinha aprendesse a voar.

 

 

 

Se lembra do tempo em que brincávamos de ler mãos?

Fizemos um corte profundo do pulso até a ponta do dedo do meio,

e a cicatriz seria a linha própria de cada um na vida do outro.

 

 

 

Se lembra que você disse que sou parte de ti?

Pois é. O dia em que você pousar no poleiro do velho

me sentirei estuprado.



Escrito por Dimitrios às 09h12
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Oferta

 

 

 

Procura-se uma velha rica.

Que declama, dê cama, comida, carinho, caderno, caninha, caneta e cuecas,

derrama e caduca.

 

 

Procura-se uma velha rica.

Que tenha pelo menos mais trinta anos de vida

- não quero enterrar amiga. . .

Não precisa ser bonita.

Sei como é difícil elogiar a beleza!

Pode ser daquelas que pensam ler pensamento.

 

 

Não sou bem dotado, mas sou bom com a língua.

Tenho bom álibi e, dependendo, bom hálito.

 

 

Procura-se uma velha,

nem precisa ser tão rica

e muito menos dar no coro;

uma velha pro sustento e pra conversa,

que tenha boa ou má saúde, tanto faz.

É isso! Procuro uma velha tanto faz.

E tanto faz que seja um velho.



Escrito por Dimitrios às 09h09
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Velado

 

 

 

Vivo a vida favelado

Já que não posso levá-la

            deixo-a

Já que não posso lavá-la

            sujo-a

Já que não posso livrá-la

            fujo à

                 vida

            pela vala

                 ávida

 

 

Se tiver que morrer, morro

com cacetada de vela de sete dias

desmorono do rumor do morro

e não queimo prometido

a nenhum santo

metido a redentor

            olha que me levanto

            se me fizerem romarias

            durante os últimos

            dos meus sétimos dias

 

 

E que não fique num caixão

                                   fechado

danço nem que for por uma

                                   fresta.

 

 

Amém

a mim

e

adeus

a deus

que não me chamo

Amim

nem tão pouco

Amon

se tivesse que ter

nome me chamaria

Neom

Mas indigente

não quer anéis de papel

quer menos que nomes de gente

pra viver ao léu



Escrito por Dimitrios às 09h07
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Nita

 

Era um ramo sem rumo,

cabocla com flanar de valsa

e com falar sem pausa;

Nita não era bonita,

vestia um barraco de chita

e sabendo-se feia fazia fita;

Fodia bem e barato,

tanto quanto não cobrar,

sempre usava sandália,

não gostava de sapato.

Pra quem pede no mato,

pra quem fede a rato

ou vive de ganhar prêmios no rádio,

cobra d’água ou cobra dada

não há porque cobrar:

se enrosca a espádua

se mergulha sem tirar hulha

se perfura

e perdura duro

e borbulha

no claro ou escuro

se nada na danada

e se afoga

e se esbalda

sem fuga

sem medo de pulga

se não se finge de esfinge frígida

se espicha

mete forte e não trincha

se se roça mas não é lixa

e também se é bicha

e esguicha

ela pega e abraça

chama na chincha

e trepa sem jaça.

Em casa fazia tapete;

Seu marido, Seu Bráulio,

seu pai, Seu Pinto,

baixavam-lhe o topete;

Seu pinto tinha filha

mas gostava de pau;

Seu Bráulio amava Nita

mas só transava com suas filhas.

Trabalhava bastante

mas tinha um repouso

que era socar seu esposo

sem nada cortante.

Às sextas recebia santo

tomava conhaque

e girava tanto

que acabava num baque;

Da Pomba-Gira era devota,

sofria na boa de Alzheimer

e à beira da bancarrota

bancava seu amante Jaime.

Sessenta anos, cinco crias,

um copo de cachaça crua

e caso lhe faltasse a sua

bebia o cheiro das meninas.

Não sabia ser séria.

Não sabia ser série.

Não tinha cerne,

era toda carne, muita carne,

carne pra toda obra.



Escrito por Dimitrios às 09h06
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  continuação...

 

 

 

... Mas Nita avançava por um parque

pra encurtar a andança

e à caminhada mansa

para não sofrer ataque. . .

Nita entre as árvores

. . .Nita pêga pela trança. . .

As árvores entre Nita.

Hora do almoço. Olor de marmita.

A carne de Nita o cardápio.

 

 

No pescoço um cadarço.

Na cintura um braço

e um pedaço de aço.

 

 

Mas ela sem asco roubou-os,

roubou-lhes a cena,

farta de sexo com robôs,

ela é que queria estuprá-los,

sexo, sexo apenas.

Do pescoço tirou o laço

e disse que se fosse pra enlaçar

que fosse com os lábios

em beijos, não lábios lassos,

lépidos em beijos devassos;

eram dois,

que fodessem e sequer

dissessem oi.

 

 

Os meninos tinham pintos

limpos como sorvetes

e como já haviam

largado os canivetes

Nita chupou um pouco

pra lubrificar e lúbrica

disse ”mete”;

No chão de folhas caídas

agora era um besouro

de barriga pra cima

fazendo abdominais;

o rapaz que estava por baixo

criou raízes e seu tronco

um anel de idade a mais;

o de cima metia

e metia tão fundo

tão fundo,

como se quisesse achar petróleo

do outro lado do mundo.

Nita bocejava de prazer.

 

 

Esporraram uma geléia de pérola na boca dela

que chupava um falo grosso

como uma cadela um osso.

 

 

. . .A refeição se atrasou,

A mãe saíra para comprar o almoço;

em casa a fome era tanta

que Nita parecia ter chegado

apenas para a janta.

Nita contou as horas do atraso.

Indignados, quiseram dar queixa,

mas Nita, canora:

“Quem é que não gosta de carinho

Quem é que não gosta de um beijo”. . .

 

Estenderam uma batina sobre a mesa

e serviram-se. Voltou-se à rotina.



Escrito por Dimitrios às 09h02
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Maria sem vergonha

 

 

Dei-lhe um trevo

de quatro rosas

e uma pétala decepada

 

 

Quero te despetalar

ver sangrar

teu sangue branco

mesmo sem saber

se é venenoso

ou se é gozo

 

 

Deu-me uma lança

sem ponta que no peito

ficou cravada

 

 

Lançamos garrafas no leito

Lançamos os corpos nas farpas

E nos cobrimos com um lenço

esfarrapado de sangue

e nos abrimos a gesso

afiado no fio da faca

e nos amamos de um jeito

próprio de quem ama na maca

 

 

Deu-me a ponta

sem lança e disse

mete goela abaixo que passa



Escrito por Dimitrios às 12h18
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Morto de sono

 

 

O Morto de sono era um percevejo no meio da tempestade simulada:

Choques elétricos

pedras-de-gelo no cu

jatos de calafrio, barulho, luzes

tatuavam seu corpo com desenhos figurativos

que se fixavam com chineladas;

mas seu suor nauseava a chuva

porque cheirava a suco de grama com leite.

 

 

Aí então São Pedro acendia um incenso de rosas.

 

 

 

 

O Morto de sono agora dorme o sono secular das árvores.

 

 

Dormia apenas. Exausto. A tortura parecia um cafuné.

Mas São Pedro muito puto da vida

lançou uma borrasca daquelas de serrar as raízes.   

 



Escrito por Dimitrios às 12h16
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Eles

                                                                      Aos mágickos

 

São manequins

dentro de mins

 

O virgem pai de família

O leão surrado rugindo morto

Os homens-de-letra

 

– quando abrem os braços –

me espanto

 

 

escrito em parceria com JB 



Escrito por Dimitrios às 12h14
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HISTÓRICO



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